(O texto seguinte é de Mário Zambujal e foi adaptado pela filha, Isabel Zambujal – também ela autora – que o leu como agradecimento na entrega dos Prémios Gazeta, onde o seu pai foi merecidamente distinguido.)

‘Agradecimentos ….
Este prémio de mérito é também um prémio de vida. Por isso, adaptei um texto inédito do meu pai, escrito há quase uma década, para este momento solene.
Lengalenga do vosso amigo Mário
no seu primeiro dia de octogenário
Não estou nada arrependido
de ter nascido,
Antes de mais,
agradeço aos meus pais
— Antónia e Joaquim —
o ter acontecido assim.
Ai o que eu tinha perdido
se não tivesse nascido!
Viver tem piada.
Maus bocados qualquer passa,
mas faça ela o que faça
a vida é bem apanhada
— tem graça!
Com mais ou menos jeitinho
vou optando pelo riso.
Ai o que eu tinha perdido
se não tivesse nascido!
O calor, o frio
a chuva, o vento
noites, noitadas
horas trocadas
Gente fixe
e emplastros
— livros, jornais
palavras escritas
meus barcos e cais
Ai o que tinha perdido
se não tivesse nascido!
Os rios, a selva,
árvores e frutos
pedaços de relva
com gajos aos chutos.
Copos, cigarradas
— pequenos vícios —
Festa é festa
Em bar ou colchão.
Vertem paladares
De campo e mares,
garrafas à escolha,
Salta a rolha.
Ai o que eu tinha perdido
se não tivesse nascido!
Principalmente:
se eu não tivesse nascido,
meus amigos, minha gente,
tanto teria perdido
por não vos ter conhecido
E este prémio de mérito
talvez não seja merecido
mas prémio é prémio.
Ai o que eu tinha perdido
se não o tivesse recebido!
Obrigada.
27 / Novembro / 2025